30.5.12

Marketing bacterial e branding cultural

Fala-se muito em "criar um viral". Muitos tentam, poucos conseguem. Além disso, como nos lembrou o Nino Carvalho, o marketing viral pode ser pouco eficaz. Por dois motivos:

  • Pouquíssimos virais hoje em dia duram mais de uma semana.

Melhor seria fazer marketing bacterial, ele sugere. A abordagem, proposta inicialmente por Tristan no The Backlight, parte de um pressuposto comum ao branding cultural: apoiar-se na comunidade pré-existente para aumentar o alcance das histórias da marca. 

Como funciona? Em resumo, o método consiste em criar rotineiramente conteúdo relevante para seus contatos nas redes sociais, otimizando-o para máximo destaque nos mecanismos de busca e distribuindo-o por e-mail também.

Parece simples, mas, para aumentar seu poder de propagação nas mídias sociais, é preciso ir mais fundo.

O poder bacterial do conteúdo de uma marca depende de sua conexão com a cultura. Dois fatores são fundamentais, a meu ver:

  • O conteúdo precisa ter link value, ou seja, deve servir para aproximar os seus seguidores e fãs uns dos outros e criar relacionamentos entre eles;
  • A marca deve se tornar, por meio das histórias que conta, um ícone cultural.

Que histórias tem esse poder? As histórias que expressam o estilo de vida e a visão de mundo de uma tribo influente: mitos de identidade que contagiam toda uma sociedade. Neles reside o poder bacterial do branding cultural.

No post sobre modelos de branding, explico melhor quais são as diferenças dessa abordagem em relação a outras estratégias de construção de marcas.

9.5.12

A marca como autor virtual

O relacionamento entre uma marca forte e seus fãs é similar à ligação que estabelecemos com determinados autores. Com uma diferença: a marca é incorpórea, jamais estará diante de nós em carne e osso.

Ainda assim, ao assinar mensagens publicitárias e branded content, ela faz de conta, num caso típico de emissão delegada, que tem uma identidade social, que é culturalmente "existente". E nós, enquanto audiência, fazemos de conta que assim o é, apesar de sabermos muito bem que o emissor empírico de tais mensagens é outro: profissionais de comunicação, criativos e produtores culturais.

É um faz de conta muito vantajoso para ambos os lados. O consumidor passa a saber com quem está lidando, o que esperar de uma determinada marca. A marca, ao ganhar a confiança do consumidor, tem seus produtos mais facilmente aceitos por ele.

Obviamente todo esse esquema falha se a identidade da marca-autor não for bem trabalhada em sua "obra". O que isso significa na prática?

Em primeiro lugar, que a marca precisa ter uma "voz" própria. Notem, a identidade de um autor torna-se mais clara e concreta se, ao longo das suas publicações, houver uma recorrência constante de um determinado estilo, muito próprio dele.

No jargão publicitário, isso quer dizer: ter "unidade" na comunicação. Em termos mais semióticos: é preciso haver uma isotopia intertextual, o "regresso obstinado de um elemento textual, de um conceito, de um aspecto significativo" (VOLLI, 2000, p. 119), que, em branding, se organiza em torno dos valores e dos elementos que distinguem a marca, os quais espera-se que compareçam também, insistentemente, nos produtos e nos demais aspectos do mix marketing (é tudo texto afinal, pois objetos e experiências também comunicam).

Grandes autores devem ter "voz" própria, exigem os críticos literários. A mesma coisa se espera das marcas que desejam construir uma identidade forte por meio de publicidade e branded content.

Além disso, é necessário que tal identidade seja culturalmente "existente". Não adianta à ela cultivar uma "voz" própria se falar em língua estrangeira e desconhecida: a marca não será compreendida. Seu conteúdo precisa ser expresso (e muito bem) de acordo com o código cultural do seu público.

Mais: deve estar sintonizado com as mudanças e as novidades desse código. Caso contrário, torna-se irrelevante. Quero dizer com isso: não basta ser compreensível, o conteúdo da marca-autor precisa contar histórias sobre as questões do seu tempo, que mobilizam a sociedade, e propor respostas às contradições culturais vividas por seu público. Precisa fazer branding cultural.

Leia também: Toda publicidade conta uma história.

Referência:

VOLLI, Ugo. Semiótica da Publicidade. Lisboa: Edições 70, 2000.

6.5.12

Branding cultural à japonesa

Pelo quinto ano consecutivo, os comerciais de TV da Softbank foram eleitos os mais queridos do público japonês. Cada anúncio funciona como um episódio de uma série que retrata uma família nada convencional: o pai é um cachorro, literalmente, e o filho mais velho, um negro - apenas a mãe e a filha são japonesas típicas.

Veiculada desde 2007, a série tornou-se um fenômeno de popularidade ao incentivar o debate sobre as relações familiares e a influência dos estrangeiros num país cada vez mais ocidentalizado. Bom exemplo de branding cultural.

29.4.12

A semiótica da manipulação e o branding

Na semiótica gerativa, a manipulação é o processo por meio do qual o destinador compromete o sujeito a entrar em conjunção com um determinado objeto de valor.

Tais categorias são usadas no estudo de narrativas. Elas referem-se a determinados papéis sintáxicos (os actantes) e não aos atores da história analisada. O protagonista de uma aventura, por exemplo, pode ser ao mesmo tempo tanto destinador quanto sujeito, caso em que o herói obtém de si mesmo o compromisso de conquistar algo que é precioso para si ou para outrem.

O trabalho do destinador imita a atuação dos profissionais de branding na medida em que estes dedicam-se a transformar as marcas em objetos de valor para os indivíduos, lançando-os na aventura do consumo.

Há muitas maneiras de destinar alguém segundo a narratologia. Greimas e Courtés (2008) destacam os quatro principais tipos de manipulação, todos eles facilmente identificáveis nas histórias que as marcas contam.
  • Na tentação, o destinador propõe ao sujeito uma recompensa (objeto de valor positivo) com a finalidade de levá-lo à conjunção com a marca ("Become someone else. Pick your hero..."). 
  • Quando o destinador compromete o sujeito a fazer algo por meio de ameaças, ocorre uma intimidação ("Si te seduce... Pierdes"). 
  • A sedução acontece quando o destinador revela um juízo positivo sobre a competência do destinado ("Yes, we can").
Leia também: estratégias semióticas do branding.


Referência:

GREIMAS, Algirdas J.; COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2008.

8.4.12

Identidade, branding e literatura

Tenho abordado e defendido neste blog um tipo de branding baseado na construção de mitos de identidade, o chamado branding cultural. Por mais arte que haja no processo de contar tais histórias, entretanto, não me engano - muito menos quero enganar vocês - sobre a sua falta de arte.

A publicidade tem se apropriado de recursos e técnicas literárias, muitas agências esbanjam um poder narrativo digno do melhor cinema, mas toda essa "arte", convenhamos, serve, quase sempre, apenas para estetizar estereótipos de domínio público ou de uma cultura em particular, permanecendo muito aquém do nível de questionamento e elaboração a que se propõe a "verdadeira" arte ("verdadeira" assim, entre aspas, porque nem mesmo os artistas se entendem sobre o que seja exatamente a arte). 

No que se refere ao problema da identidade mesmo, observem como o assunto é tratado por Bernardo Carvalho, um dos mais celebrados escritores brasileiros em atividade, autor de romances como MongóliaNove Noites e O Sol se põe em São Paulo, livros em que, segundo o próprio autor, "os personagens fogem o tempo inteiro de si mesmos, da identidade que lhes foi imposta ou que pode defini-los":
"[...] na literatura, me parece que estou perdendo o fundamental ao me contentar com as identidades. O papel das identidades é apaziguar, tornar a vida mais fácil. A identidade é simplificadora. Você se reconhece no grupo e esse reconhecimento o protege e confirma o que você é quem acreditar ser e pertence ao lugar ao qual acredita pertencer. É muito mais fácil ter um lar e uma pátria do que ser estrangeiro para sempre. Mas quando você se sente em casa, confortável, deixa de fazer um monte de perguntas que antes não tinham resposta ou eram insuportáveis. E, se você já não tem dúvidas, tampouco precisa de literatura."

Referência:

MATTOS, Bruno e MACHADO, Samir Machado de. Entrevista com Bernardo Carvalho. Cadernos de Não-Ficção, Porto Alegre: Não Editora, Ano 5, Número 4, p. 7, 2012.

5.3.12

Estratégias semióticas do branding

Reuni numa coletânea alguns ensaios meus sobre comunicação de marca. Duas referências principais orientam a análise e a construção de modelos: a semiótica gerativa e o branding cultural. O trabalho está disponível para download via slideshare.

4.3.12

Mitos sobre a criatividade

No artigo A Mitologia das Ideias, o filósofo Hélio Schwartsman relativiza as fórmulas prontas para incentivar a criatividade no ambiente de trabalho.

O texto, veiculado na Ilustríssima deste domingo, desconstrói alguns mitos sobre o assunto, explorando suas nuances de forma bastante equilibrada:
  • O brainstorming não produz ideias tão boas e factíveis quanto pessoas trabalhando sozinhas;
  • Ambientes reservados, onde há mais privacidade, atraem profissionais de alta performance, que preferem se concentrar em suas tarefas;
  • Por outro lado, o debate é indispensável para se evitar os vieses cognitivos que levam os indivíduos a ignorar dados relevantes que contrariam seus preconceitos e intuições;
  • Para evitar a conformidade - tendência a concordar com os outros para se evitar conflitos pessoais -,  é preciso estimular aqueles que gostam de questionar o consenso e montar equipes culturalmente heterogêneas, com pontos de vista variados.
O autor conclui o artigo com uma importante ressalva: "e, mais importante, não acredite em fórmulas prontas".  Afinal de contas, seguir regras é pedir para ser trouxa.

26.2.12

Conceito e preconceito

Mais importante do que aprender um conceito é aprender a abandoná-lo antes que ele se torne um preconceito.

5.2.12

Semiótica em Argia

O que a literatura têm a ver com branding? Muito. Cada vez mais busca-se na narrativa literária os artifícios essenciais para a construção de marcas e a criação de branded content (Carrascoza, 2006). Então é sempre bom observar como trabalham os mestres na arte da ficção. Neste post, analiso a breve história de Argia e sua prosa cheia de poesia. Algumas ferramentas úteis para interpretação e produção de textos publicitários são apresentadas ao longo do ensaio.

Histórias sobre Argia

Marco Polo, navegador veneziano e embaixador de Kublai Khan, relata ao imperador a situação de Argia. A narrativa está no livro As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.

O que distingue Argia das outras cidades é que no lugar de ar existe terra. As ruas são completamente aterradas, os quartos são cheios de argila até o teto, sobre as escadas pousam outras escadas em negativo, sobre os telhados das casas premem camadas de terreno rochoso como céus enevoados. Não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade alargando as galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes: a umidade abate os corpos e tira toda a sua força; convém permanecerem parados e deitados, de tão escuro. 
De Argia, daqui de cima, não se vê nada; há quem diga: "Está lá embaixo" e é preciso acreditar; os lugares são desertos. À noite, encostando o ouvido no solo, às vezes se ouve uma porta que bate.

Ítalo Calvino não nomeou essa cidade invisível casualmente. "Argia" representa aqueles que acreditam haver vida após a morte.

Na mitologia grega, Argia era filha do rei Adrasto, de Argos, e esposa de Polinice, rei exilado de Tebas por seu irmão, Eteocles, que se apoderou definitivamente do trono.

Decidido a fazer valer seu direito à coroa, Polinice empreendeu uma guerra cujo fim foi trágico: ambos os irmãos morreram no campo de batalha. Creonte assumiu o poder rapidamente e ordenou que os mortos ficassem insepultos como punição pela guerra fratricida.

Inconsolável, Argia correu até o local do combate e procurou incansavelmente por Polinice até encontrar o corpo dele. Desesperada, recusou-se a acreditar que o marido estava mesmo morto. Tentou despertá-lo com lágrimas e beijos, mas seus esforços foram vãos.

A expressão e o conteúdo de uma cidade invisível

A referência intertextual reforça o tema sugerido pelo título da narrativa - "As Cidades e os Mortos 4": Ítalo Calvino escreve sobre a morte.

Ao figurativizar o mundo dos mortos como uma cidade, no entanto, o autor cria uma notável tensão semântica, pois a palavra "cidade" sugere movimento, e só há movimento onde há vida, costumamos supor.

A caracterização de Argia é contraditória. Suas ruas, quartos, escadas e toda a extensão sobre os telhados, ilustrações típicas de uma cidade, estão completamente soterradas, condição em que não julgamos possível haver vida humana.

Marco Polo e todos os "de cima" não sabem como os habitantes do local podem se locomover em tal situação. Especulam: talvez "alargando as galerias das minhocas e as fendas em que se insinuam raízes".

A verdade é que a umidade do espaço é tanta que "abate os corpos e tira toda a sua força". O lugar, de tão escuro, força os citadinos a "permanecerem parados e deitados".

Notem a sutileza: na passagem em que o veneziano descreve o fato positivamente, os "habitantes" passam a ser "corpos". Poderiam ser denominados "indivíduos" ou "pessoas", mas são chamados de "corpos" de modo a sugerir que estão mortos.

A morte só não é exclusivamente afirmada porque há testemunhas respeitáveis que a contradizem. A cidade "está lá embaixo", insistem pessoas em quem "é preciso acreditar" mesmo que elas nunca tenham visto Argia e se apoiem numa evidência fraca para deduzir que há vida na cidade dos mortos: o som de uma porta que bate nas profundezas, à noite, hora em que a mente do observador está cansada e menos lúcida, sem muito discernimento das coisas.

O quadrado da vida e da morte

No primeiro parágrafo da narrativa, Ítalo Calvino descreve a cidade por meio de uma série de oxímoros, aproximando, numa mesma unidade de sentido, figuras contraditórias. O recurso inviabiliza o ato definitório, pois uma definição não deve apresentar contradições, e serve para sugerir a impossibilidade de distinguir a real condição de Argia.

Morta e ao mesmo tempo viva, a cidade figurativiza o termo complexo do quadrado semiótico construído a partir da categoria semântica /vida/ versus /morte/.
Conforme nos lembra Fiorin (2011), a junção de termos opostos num discurso é típica do mito, categoria em que podemos situar a narrativa fantástica de um lugar em que há vida após a morte.

A estrutura da narrativa

No contexto do livro As Cidades Invisíveis, a história de Argia concentra-se no momento da sanção. As etapas anteriores do esquema narrativo canônico (Greimas, 1990) estão pressupostas.

Marco Polo assume o papel actancial de sujeito da narrativa, apresentando à Kublai Khan (destinador e destinatário) o objeto que, enquanto embaixador, se obrigou a trazer até o monarca: uma descrição verdadeira sobre a cidade dos mortos.

Em seu relato, Marco Polo cita ajudantes que, num momento anterior à sanção, em plena busca da verdade, lhe ofereceram testemunho e provas sobre a real natureza de Argia.

A incerteza do narrador

Marco Polo tenta descrever a cidade da forma mais objetiva possível. Daí sua opção de narrar quase o tempo todo na terceira pessoa. Seu papel afinal é apresentar relatos que permitam ao Grande Khan discernir o que se passa de fato nos domínios do império.

O eu do narrador só se projeta explicitamente no enunciado numa rápida passagem - "não sabemos se os habitantes podem andar pela cidade [...]" -, o que nos permite entrever sua opinião pessoal: no seu íntimo, Marco Polo não se sente seguro de que haja vida em Argia.

Sua incerteza é fortalecida pelo fato de que "daqui de cima", lugar da enunciação, ninguém é capaz de enxergar a cidade: "não se vê nada". O único sinal da existência de Argia é captado pela audição, sentido bem menos confiável do que a visão.

A insegurança de Marco Polo não o impede, entretanto, de admitir a existência da cidade com base na mera imaginação. Apoiando-se no testemunho dos outros, expressa o fato em discurso direto - "está lá embaixo" -, artifício que produz um efeito de verdade - o imperador é induzido a pensar que seu embaixador relata as coisas como de fato são.

O espaço e o tempo da morte

O espaço da enunciação é o espaço dos vivos. "Aqui em cima" é onde se encontram Marco Polo (narrador), o Grande Khan e todos aqueles que, ao dizerem "Está lá embaixo", estabelecem uma distância entre si e os mortos.

A superfície é o plano da vida, da controvérsia e da transformação. É onde, depois de encostar o ouvido no solo, "às vezes se ouve o barulho de uma porta que bate". É o lugar em que o embaixador oscila entre a crença e a dúvida enquanto certos atores do enunciado tentam convencê-lo de que há vida no subsolo.

"Lá embaixo", ao contrário, não ocorre nenhuma mudança de estado. A cidade está definitivamente soterrada e seus habitantes permanecem parados e deitados. Concomitante ao momento da narração, o tempo de Argia não se limita porém ao presente: é um tempo fora do tempo, o eterno presente da morte.

O jogo da verdade

A história de Argia pode ser lida como um "jogo da verdade", uma tentativa de "estabelecer, a partir da manifestação, a existência da imanência" de uma cidade viva (Greimas e Courtés, 2008, p. 533).

Por meio da lógica do quadrado semiótico, o diagrama das modalidades veredictórias coloca em relação os esquemas do parecer/não-parecer (manifestação) e do ser/não-ser (imanência).
Marco Polo tentar alcançar o termo complexo do esquema, a verdade, ou seja, confirmar ser Argia uma cidade viva por meio do parecer Argia uma cidade viva. Mas a urbe permanece um segredo para ele, pois é viva, como atestam pessoas dignas de crédito, sem parecer viva, a não ser, insisto, por uma evidência muito frágil: o som de uma porta que bate, às vezes, quando, à noite, se encosta o ouvido no solo.

Tumulto epistemológico

A relação entre o ser e o parecer é tensa em Argia. A verdade é fugaz, pois o ser-cidade, um conhecimento bem estabelecido pela tradição e pelo testemunho, é marcado em vários momentos pelo não-parecer-cidade.

Fontanille e Zilberberg (2001), pioneiros da semiótica tensiva, propõem que as categorias semânticas sejam definidas pela relação entre os eixos da extensidade e da intensidade, sobre os quais o discurso faz investimentos de tonicidade.

O eixo da extensidade é associado ao componente que tem incidência global no discurso. No caso de Argia, o /ser/ é da ordem da extensidade, pois é a noção que se tenta sustentar ao longo do texto, enquanto o /parecer/ é da ordem da intensidade porque coloca suas marcas locais na dimensão da extensidade.

Sobre cada um desses eixos projeta-se tonicidade, variando do átono ao tônico. Na narrativa em questão, sobre o eixo da extensidade podemos observar o /ser/ como sendo tônico e o /não-ser/, átono, enquanto sobre o eixo da intensidade localizamos o /parecer/ e o /não-parecer/.

A princípio, dois tipos de relação podem ser produzidos entre esses eixos. A relação será conversa se o /ser/ e o /parecer/ forem diretamente proporcionais - ambos aumentam ou diminuem juntos, simultaneamente - e inversa se forem inversamente proporcionais - o /ser/ aumenta enquanto o /parecer/ diminui, ou diminui enquanto o /parecer/ aumenta.


Na narrativa de Ítalo Calvino, as duas relações estão presentes, cada uma delas associada a um ponto de vista diferente.

A descrição de Argia por meio de oxímoros afirma /ser/ ela uma cidade, mas, ao mesmo tempo, /não-parecer/ uma cidade, já que está totalmente aterrada. Eis a posição do segredo no diagrama das modalidades veredictórias, ponto situado num extremo da curva inversa sobre a qual se desloca o embaixador em sua vã tentativa de alcançar a verdade: na medida em que ele busca tonificar o /parecer/, o /ser/ se torna átono, pois a aparência de Argia não é a de uma cidade.

Marco Polo não chega porém a negar a sua existência. Por força do testemunho de pessoas em quem "é preciso acreditar", o veneziano resigna-se a definir Argia como uma cidade, incluindo em seu relato uma evidência conversa não muito forte: o barulho da porta que bate "lá embaixo" tonifica o /ser/ na medida em que acentua o /parecer/, mas não o suficiente para estabelecer de modo pleno a verdade, deixando-nos oscilar naquele ponto em que se misturam segredo, mentira, verdade e falsidade, ponto em que se cruzam as curvas conversa e inversa, lugar de tumulto epistemológico.


Referências

CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. Tradução Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

CARRASCOZA, João A. A evolução do texto publicitário: a associação de palavras como elemento de sedução na publicidade. São Paulo: Futura, 2006, 8. ed.

FIORIN, José Luiz. Elementos de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2011, 15.ed.

FONTANILLE, Jacques; ZILBERBERG, Claude. Tensão e Significação. São Paulo: Discurso Editorial, Humanitas/FFLCH/USP, 2001.

GREIMAS, Algirdas J. Del Sentido - Ensayos Semioticos. Madrid: Credos, 1990.

GREIMAS, Algirdas J.; COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2008.